A ENXERTIA DA FÉ

Esse tema é uma continuidade do que escrevi anteriormente sobre A Igreja Enxertada que pode ser lido aqui.

Não há como pensar sobre fé sem fixar os olhos em Hebreus 11 e enxergar suas lições preciosas sobre o que é fé bíblica. A narrativa histórica dos grandes feitos dos homens e mulheres de Deus, nos dão um verdadeiro retrato de como é viver “a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (v.1). No Novo Testamento, o substantivo no grego (fé, fidelidade, confiança, lealdade) e o verbo cognato (crer, estar convencido, confiar, dar crédito) ocorrem ambos mais de 240 vezes, e o adjetivo (fiel, confiável, digno de confiança) ocorre 66 vezes. Sua aplicação mais comum é de crença ou convicção intelectual apoiada em testemunho (2Co 4.13; Fp 1.27) e completa confiança em Deus e em Cristo para redenção (Rm 3.22,25; Ef 2.8). Segundo o Apóstolo Paulo, produz salvação: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Rm.10.9).

No Evangelho de João, o verbo crer ocorre quase 100 vezes, e seu uso mais forte focaliza a pessoa de Jesus Cristo, a partir do propósito do livro em João 20.30. Para João, a fé revela a atitude mediante a qual o homem abandona toda a confiança em seus próprios esforços para obter a salvação. A fé não consiste em aceitar meramente as coisas como sendo verdadeiras, mas confiar numa Pessoa, em Jesus Cristo.

A exemplo da Igreja Enxertada, a enxertia da fé é igualmente um fenômeno em que a fé bíblica é “infestada” por manifestações estranhas que a desqualifica e reduz sua importância.

Entendo, que a fé em si é uma “anomalia” considerando seu aspecto espiritual e irracional. A fé não tem cérebro mais não bloqueia o pensamento. A fé não nos é dada às segas mais por um Deus de Luz.

Fé é a flecha que mira no improvável rumo ao impossível. (Hebreus 11.1)

Pensam e crêem alguns: a fé é pessoal e intransferível (de cada um) e portanto não deve ser questionada como se lida com ela. A reflexão que proponho não desqualifica a particularidade e singularidade da fé, mas põe luz no uso “destorcido” dela para fins averso ao seu propósito bíblico. A fé humana tem sua importância e eficácia, mas é limitada.

A fé temporal, por ser passageira e momentânea “se baseia na vida emocional e busca a satisfação pessoal” (Louis Berkhof). A parábola do semeador ilustra muito bem a fé temporal que sucumbe às tribulações e provações da vida (Mt 13.20-22).

A fé milagrosa é tradada pelo Senhor Jesus, quando muita gente acreditou no seu poder após a multiplicação dos pães e peixes, a ponto de desejarem torná-Lo seu rei (Jo 6.14-15), porém, isso não o isentou de identificar a incredulidade deles (Jo 6.26,64). O interesse das pessoas dizia respeito somente àquilo que Ele poderia oferecer.

A fé bíblica tem recebido enxertos para adequa-se à realidade dos que dela desejam benefícios sem importarem-se com sua real natureza e finalidade. Nossas igrejas estão repletas de crentes cuja fé é firme até uma decepção com outro irmão ou com uma negativa de Deus à sua prece. A fé bíblica não pode ser comparada a fé humana (na vida, nas coisas, na humanidade, na própria capacidade, na medicina, etc.,), pois ela é uma dádiva divina e individual para a salvação (João 3.16,36; 6.47; Atos 16.31; Romanos 1.16; Gálatas 2.20), não deve ser barganhada ou negociada numa roda de “negociatas da fé”.

O que vemos em nossos dias são enormes “Organizações da Fé” que se utilizam da “inocência” dos fieis e manipulam a fé como uma “mistura sagrada” que pode ser vendida para curar a doença, prosperar nos negócios ou até mesmo se dar bem nos relacionamentos. É o mercado da fé!

A enxertia da fé nada mais é do que uma tentativa de utilizar-se da fé em nome de Deus que mais confundi e ilude do que produz frutos de salvação.

A enxertia da fé é um fenômeno parasitário que cega e anula o poder real da fé exemplificado por Cristo em Mateus 17.20, por ocasião da cura do rapaz endemoninhado. Nesse texto, Jesus não trata da insuficiência da fé mas da nossa incapacidade de crer corretamente.

Enxertar “novas” coisas na fé com o pressuposto de que estamos agradando a Deus ou de que Ele vai “responder” nosso esforço físico não é certo. Deus conhece quem somos e sabe do que necessitamos. A fé é para a salvação como a adoração é para Deus.

Enxertar “firulas” na fé é pensar que Deus necessita de algo fantasioso para agir. É necessário entender que somos salvos em Cristo e nos tornamos filhos de Deus através de Cristo! Cristo morreu por nós e nEle somos refletidos no Pai, não há nada bom em nós (devido a nossa natureza pecaminosa) que faça o Todo-Poderoso Deus nos enxergar, senão através de Cristo somente.

A enxertia da fé só produz crentes frustrados e desenganados, frios e distantes de Deus. A enorme apostasia vista em nosso tempo é em sua maioria consequência desse comportamento anormal que insiste em lidar com a fé como “amuleto” para o progresso pessoal em tudo e por cima de todos.

Por fim, a enxertia da fé confunde os crentes ao invés de produzir santidade e crescimento espiritual, produz fraqueza e falta de retidão moral e espiritual e tem levado muitos que professaram a fé nEle a viverem mais para o mundo do que para seu Salvador numa triste ilusão de que basta ter fé e deixar a montanha no seu devido lugar ou “basta andar com fé… que não costuma falhar” (Gilberto Gil).

Como tem vivido sua sua fé?

Que Deus nos ajude!

Amém!

Josinaldo Mariano


Leia: A Igreja Enxertada